PALAVRAS EM FOCO

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quarta-feira, 2 de março de 2011

FERNANDA TORRES - Rivotril

Não sei se o homem das cavernas tinha mais ou menos ansiedade que um sedentário de meia-idade


NUNCA FUI corajosa. Depois do nascimento dos meus filhos, o instinto de preservação quintuplicou minha covardia latente. Lutei contra a natureza por quase 20 anos, mas a maternidade me venceu por completo.
Li com inveja e espanto a notícia de uma mulher que desconhece o medo. A síndrome de Urbach-Wiethe destruiu sua amígdala, uma estrutura em forma de amêndoa situada no fundo do cérebro, e desarmou seus alertas internos de proteção e perigo.
Seria isso uma benção ou uma danação?
O fim do ano de 2010 foi especialmente difícil para mim e os meus. Mortes na família, doenças graves, decisões urgentes e infecções sorrateiras culminaram no funil esperançoso de Natal e Ano-Novo. O resultado foi um temor angustiado que virou o ano de mãos dadas comigo e se recusou a voltar a um nível tolerável depois de passadas as festas.
O processo ansioso, cego e insistente, o choro que alimenta o choro, levou muitos amigos a me aconselharem uma visita a um psiquiatra. O nome que mais ouvi, antes mesmo do telefone de um especialista, foi o do milagroso Rivotril. A panaceia me foi descrita como um unguento milagroso, capaz de cortar a sinistrose pela raiz.
Em "O Erro de Descartes" (Companhia das Letras, 336 pág., R$ 63), Antônio R. Damásio faz uma advertência contundente a respeito do uso indiscriminado de antidepressivos. Segundo o neurologista português, abrir mão da tristeza é dar adeus a uma das poderosas armas evolutivas responsáveis por manter a raça humana em estado de atenção. Anular a dor seria uma solução tão estranha quanto desligar o radar para não sofrer com a antecipação da tempestade.
Eu não sei se o homem das cavernas, correndo diariamente o risco de ser devorado por uma besta-fera, tinha mais ou menos ansiedade do que um sedentário de meia-idade que assiste às infindáveis hecatombes cotidianas pela TV. Talvez a luz elétrica e o computador tenham nos trazido mais frustrações do que amparo, talvez as paúras de uma vida tão afastada da feroz mãe natureza só se aplaquem mesmo mediante o uso de medicamentos, não sei.
Eu sempre desconfiei das bulas reguladoras do humor; do humor, do sono e do apetite. E foi com tal desconfiança que me dirigi à psiquiatra, uma mulher inteligente de quem ouvi uma explicação bastante convincente para os efeitos benéficos que um antidepressivo, ou um ansiolítico, poderiam me trazer.
O cérebro é um órgão dotado de uma impressionante capacidade de se remodelar. Graças à essa plasticidade, nos recuperamos de derrames graves, aprendemos a tocar instrumentos e agimos com rapidez diante de situações-limite. Os neurônios acionam novas sinapses, criam vias alternativas, ligam e religam circuitos conforme a necessidade.
Mas a persistência de um estado melancólico, por exemplo, potencializa determinadas correntes neurais, fortalecendo uma rede funesta que impede o surgimento de novas saídas para o espírito. Como um rio sobrecarregado em uma enchente, a força das águas foge ao controle da própria vontade e deságua na chamada depressão.
O remédio interditaria o pessimismo vicioso e daria chance ao cérebro de se rearticular. Convencida a derrubar a fundação do muro das lamentações, experimentei o famoso Rivotril pela primeira vez, adiando a investida no antidepressivo.
Passei três dias sonolenta e algo abobalhada, evitei dirigir. No terceiro dia, desestimulada e apática, achei que estava pior que antes. Decidi não recorrer ao medicamento na quarta noite e tive dificuldade para dormir. Quando cogitei tomar uma gota do elixir para ir ao encontro de Morfeu, os sinos de emergência badalaram soltos sob a pele.
Nunca tive problema de sono. Qualquer droga, lícita ou ilícita, que mexa com esse metabolismo me arrepia os cabelos. Fritei no lençol até cinco da matina. Passei o dia seguinte imprestável e, no outro, depois de uma noite bem dormida e sem sedativos, acordei refeita.
O Rivotril me ajudou. Ele agiu como um elefante branco que a gente põe na sala e, no dia que tira, sente um alívio inaudito; mas não resolveu. Sem o auxílio da farmacêutica, recorri a um amigo que insiste em estar vivo há mais de 74 anos.
"Finja! Crie um personagem e finja ser ele", me disse Domingos Oliveira. "Quem enfrenta a realidade enlouquece, a única saída para a sanidade é uma dose de alienação. A arte é a única saída possível."
Não foi bem pela arte. Meu escapismo atendeu pelo nome de Fernando de Noronha. O mar, os bichos marinhos, o sol e a natureza agreste reverteram violentamente os fluídos da minha psique.
Bem que a psiquiatra avisou que uma ação desse tipo também poderia dar certo.

Fernanda Torres, Folha de São Paulo, 05/02/2011


                                                                                                                            

                                                        

Demissão de Galliano leva luz aos problemas de estilitas com álcool e drogas

Dior demite Galliano após comentários racistas




 Estilista John Galliano (centro) chega com seu advogado Stephane Zerbib (esq.) para prestar depoimento em uma delgacia de polícia em Paris. 28/02/2011)


A saída de John Galliano como diretor criativo da Christian Dior coloca um fim a uma louca viagem fashion, na qual graça, glamour e choque, em medidas iguais, fizeram a marca parisiense conservadora saltar à frente tanto em imagem quanto em sucesso financeiro.

A Dior disse em uma declaração na terça-feira que está dando início ao processo legal para demissão de Galliano, o estilista de 50 anos cujos desfiles de moda românticos e teatrais revitalizaram a alta costura, após acusações de insultos antissemitas embriagados em Paris.


Uma coleção controversa em 2000, inspirada em moradores de rua, com casacos feitos impecavelmente com costuras abertas, contrastava com os românticos vestidos de noite exibidos em um jardim de rosas no Bois de Boulogne.


Apesar de o estilo Dior ter frequentemente origens históricas, atualizando o famoso New Look de 1947 do fundador Christian Dior, Galliano adicionou uma sensualidade, perversidade e às vezes um lado sombrio subjacentes. O equilíbrio podia ser entre a elegância refinada de um vestido com corte enviesado e força das roupas de ficção científica da coleção de 1999, que injetaram o espírito do filme “Matrix” em Versalhes.


Fascinado por história, apesar de recentemente estar se afundando em referências ao passado, Galliano em sua melhor forma fazia referência a mulheres exoticamente elegantes, como a hostess parisiense Misia Sert, ou a marquesa Luisa Casati, como pintada por Giovanni Boldini.


Cada coleção era meticulosamente pesquisada, frequentemente com visitas a lugares distantes, e desenvolvida em um livro de referência feito à mão, da forma como Galliano foi treinado no Central Saint Martins College of Art and Design em Londres. Sua primeira coleção, ao se formar em 1984, foi inspirada pelos “Les Incroyables” do período revolucionário francês.


Em 1995, Galliano foi contratado pela Givenchy; menos de dois anos depois, ele se mudou para a Dior. Ambas as marcas, assim como a própria de Galliano, são de propriedade da LVMH Moët Hennessy Louis Vuitton, o maior grupo de artigos de luxo do mundo, comandado pelo empreendedor Bernard Arnault.


Nascido em Gibraltar, de mãe espanhola, a imaginação de Galliano e sua capacidade de transformar ideias em chapéus extravagantes ou calçados delicados o transformaram em um alto cigano –em parte por causa de seus cachos soltos e aparições fantasiadas teatrais ao final de cada desfile.


As colaborações com outras pessoas criativas, como o chapeleiro Stephen Jones, que era capaz de transformar cada capricho, desde caça à raposa até Madame Butterfly, em um chapéu, transformaram os desfiles da Dior em tesouros artísticos. Outras coleções prêt-à-porter mais acessíveis abrandavam o drama e o forte apelo sexual, ajudando a marca Dior a quebrar a barreira do um bilhão de dólares.


Os amigos de Galliano, que só falaram sob a condição de anonimato, disseram que eles finalmente persuadiram o estilista com problemas a ingressar imediatamente em uma clínica de reabilitação –e que o ritmo atual da moda, particularmente a estrutura rigorosa de uma marca corporativa, quebraram o criador frágil e artístico.


Apesar das declarações vis, vistas saindo dos lábios bêbados de Galliano no vídeo pela Internet, merecerem a condenação quase universal que receberam, há comoção na visão de um dos mais famosos –e mais bem pagos– estilistas do mundo sozinho, se agarrando à bebida. A pressão da moda veloz e da era de Internet instantânea de criar coisas novas constantemente já esgotou outros nomes famosos. Marc Jacobs, o diretor criativo da Louis Vuitton, acabou na reabilitação. Calvin Klein famosamente reconheceu o abuso de substâncias. E o falecido Yves Saint Laurent passou uma vida inteira combatendo seus demônios.


Acima de tudo, o suicídio de Alexander McQueen, quase exatamente um ano antes da desgraça pública de Galliano, paira sobre a indústria da moda. A morte por parada cardíaca do principal colaborador de Galliano, Steven Robinson, em 2007, também enviou um primeiro sinal de alerta.


A maioria dos estilistas, preparando suas coleções para a Semana da Moda de Paris, pediu para não ser citado para publicação.


Mas a designer de joias da Dior, Victoire de Castellane, resumiu o sentimento geral quando disse: “É terrível e patético ao mesmo tempo. Eu nunca imaginei que ele tivesse esses pensamentos dentro dele. Ou que precisasse tanto de ajuda”.


Apesar de não ter sido publicamente confirmado, um colega de Galliano disse que o estilista lutaria contra sua demissão da Dior com o advogado de Londres, Gerrard Tyrrell, da Harbottle and Lewis, que representou a modelo Kate Moss em 2005, quando ela foi acusada de uso de cocaína.


Tradução: George El Khouri Andolfato
 Suzy Menkes,  em Paris (França).


terça-feira, 1 de março de 2011

CASA DE EDITH PIAFF À VENDA POR UMA FORTUNA


CASA DE EDITH PIAFF À VENDA POR UMA FORTUNA
Casa, no Sul da França, à venda por 15 milhões de reais

Edith Piaf, a grande dama da canção francesa, é uma daquelas artistas cuja vida, iniciada na extrema pobreza, é um verdadeiro “vale de lágrimas”. Ainda menina, foi abandonada pela mãe, uma prostituta parisiense. Morou uns tempos com o pai, artista de circo, até que, aos 15 anos, já cantando, deixou tudo e foi morar sozinha.

A sua vida, até o final, foi um grande drama: teve uma filha, que morreu com dois anos de idade; perdeu o grande amor de sua vida em um acidente de avião; e uma dor crônica fez com que abusasse durante anos de morfina, o que ajudou a antecipar a sua morte. Faleceu em 11 de outubro de 1963, aos 47 anos, no mesmo dia que o seu grande amigo, o escritor Jean Cocteau.

Edith Piaf comprou a casa de mais de 200 anos, que agora está a venda por cerca de 7 mil euros, algo em torno de 15 milhões de reais, nos anos 50 e lá viveu até a sua morte. Seu corpo, levado para Paris, foi acompanhado por uma multidão poucas vezes vista na capital francesa. Até hoje, o seu túmulo, no famoso cemitério Pére Lachaise, recebe milhares de visitas de fãs de todas as partes do mundo.

É sempre bom ter uma desculpa para ouvir esta que foi uma das maiores cantoras da França de todos os tempos. 
Non, je ne regrette rien é uma canção composta em 1956, com letra de Michel Vaucaire, e melodia de Charles Dumont. Foi gravada a primeira vez por Édith Piaf em 10 de novembro de 1960.
Piaf dedicou sua gravação à Legião Estrangeira, pois estava atuando, na época, na Guerra da Argélia (1956-1962).
 

CONTEÚDO LIVRE - ZUENIR VENTURA - AMAR O TRANSITÓRIO

ZUENIR VENTURA - Amar o transitório

Carpe diem é uma expressão latina presente numa ode do poeta Horácio, da Roma Antiga, e que ficou popular no fim dos anos 80 por causa do filme "Sociedade dos poetas mortos", de Peter Weir, em que funcionava como lema do personagem interpretado por Robin Williams.
Quem viu não esquece aquele professor de literatura carismático que subverteu a caretice de uma escola conservadora, exaltando a liberdade e a poesia, e ensinando seus alunos a pensar por si mesmos. Carpe diem significa "aproveite o dia de hoje", ou seja, desconfie do amanhã, não se preocupe com o futuro, não deixe passar as oportunidades de prazer e gozo que lhe são oferecidas aqui e agora.

Neste texto, o conselho não tem nada a ver com a proximidade do carnaval. Ou pode ter, mas essa não é a intenção. Ele me foi lembrado por um amigo numa conversa em que lamentávamos algumas ameaças à saúde que atingiram pessoas queridas. Em proporções mais dramáticas, era um pouco daquilo que Ronaldo Fenômeno resumiu na sua emocionante despedida. Como as dele, eram derrotas para o corpo. Trapaças que ele apronta na forma de um tombo traiçoeiro ou do defeito de uma peça do nosso mecanismo.

Falávamos de quanto tempo se perde com bobagens que nos aborrecem além da conta, deixando passar momentos preciosos como, por exemplo, uma dessas nossas luminosas manhãs que nenhuma
outra cidade consegue produzir com igual esplendor. Desprezamos por piegas as emoções singelas e vivemos à espera das ocasiões especiais, de um estado permanente de felicidade, sonhando com apoteoses e sentindo saudades do passado e até do futuro, sem curtir o presente. Só quando surge a perspectiva da perda é que damos valor a deleites simples ao nosso alcance, como ler um bom livro, ouvir uma boa música, ver Alice sorrir, assistir a "O discurso do rei", ver o "Sarau", de Chico Pinheiro, receber o afago de leitor(a), voltar a andar no calçadão, beber uma água de coco ou admirar o pôr do sol no Arpoador. Foi depois desse papo de exaltação hedonista que meu amigo concluiu que, como o destino nem sempre avisa quando vai aprontar, urge curtir enquanto é tempo — carpe diem. O grande poeta pernambucano Carlos Pena Filho, que morreu aos 31 anos num acidente de carro, em 1960, disse mais ou menos o mesmo num dos mais belos sonetos da língua portuguesa, "A solidão e sua porta", que termina assim:

Lembra-te que afinal te resta a vida
Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

A DITADURA MILITAR NO BRASIL 1964 - 1985

“Este é tempo de divisas, tempo de gente cortada... É tempo de meio silêncio, de boca gelada e murmúrio, palavra indireta, aviso na esquina.”
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


"A nossa Pátria mãe tão distraída Sem perceber que era subtraída Em tenebrosas transações."
CHICO BUARQUE DE HOLLANDA

Dê um rolé

Os Novos Baianos

Composição: Moraes Moreira e Luiz Galvão
 
Não se assuste pessoa
se eu lhe disser que a vida é boa
não se assuste pessoa
se eu lhe disser que a vida é boa


Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvir
Apenas quem já dizia,
Eu não tenho nada
Antes de você ser eu sou
Eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés
eu sou, eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés


E só vou beijar no rosto de quem me dá valor
Pra quem vale mais o gosto do que cem mil réis
Eu sou, eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés
eu sou, eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés


"Eu não tenho coragem; meu filho teve coragem. Eu tenho legitimidade."    

Zuzu Angel (Zuleika Angel Jones)

CAROLINA, MINHA MENINA


Carolina minha menina...
Carolina meu sonho abortado, assassinado!
Carolina meu anjo encantado...
Minha flor, meu amor , minha dor!
Dentro do meu ventre por nove meses
Te perdi em instantes.
Me foi negado o direito de te ver, beijar e abraçar.
Sofro, tenho saudades, me sinto frustrada
Pela vida que eu deixei escapar,
Que eu não soube parir!
Mas o que  aquieta um pouco
O meu sofrimento,
É saber que você é um anjo encantado,
Sem pecados,
Pura, cândida, linda, mágica e menina,
Minha menina...

Poema em homenagem à minha filha Carolina que hoje estaria com 21 anos
Rita de Cássia Mattos Barroso Rodrigues